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  • Carlos Igareda

O Mestre da Fábula Documental

Newton Cannito é um autor único no cinema brasileiro. Um dos mais conhecidos e premiados roteiristas de filme de ficção, tem uma extensa e reconhecida obra como documentarista. Doutor em cinema pela USP e autor de diversos livros que falam sobre a linguagem e o mercado do audiovisual, Newton foi secretário do audiovisual no Ministério da Cultura e está à frente da discussão sobre políticas e mercado. Lançou em 2017 seu primeiro longa como diretor, Magal e os Formigas, a partir de sua biografia pessoal. Está envolvido com um sem-número de produções, com destaque para a série documental Utopia Brasil, com previsão de estreia para o segundo semestre, e que conta com co-direção do idealizador do movimento DocMakers, Leonardo Brant.



Na entrevista abaixo ele fala de roteiro, fábulas e gêneros documentais.


DocMakers: Quais as etapas de desenvolvimento de um roteiro para documentário?

Newton Cannito: Documentário tem de vários tipos. Alguns mais roteirizados, outros menos. O roteiro, como o nome diz, é um guia para orientar a filmagem. O Documentário se destaca por ter algo acontecendo a quente durante a filmagem, sem previsibilidade que o roteiro nos oferece. Por isso, muitos consideram que um documentário real não teria roteiro. Tem certa lógica. Não dá para ter um roteiro aonde tudo esta previsto antes da filmagem. Mas o mínimo que qualquer autor de doc tem que fazer é criar um mapa de personagens que representem bem a equação dramática da questão que você quer abordar. E além disso criar uma série de dispositivos ou procedimentos que catalisem a improvisação real. Isso em si, já é roteiro. O autor tem que saber a lista de perguntas, o tipo de técnica de entrevista, quais mecanismos ele usará para provocar a realidade etc. Além disso, muito do roteiro do documentário é feito na montagem, que muitas vezes começa a acontecer já durante a filmagem, orientando a construção narrativa. No final, os bons documentários dão a impressão de ser uma realidade totalmente espontânea, mas toda trabalhada em técnicas de roteiro. É isso que impressiona.


DM: Qual a linha que divide o documentário da ficção hoje em dia?


NC: Uma vez levei mamãe, 80 anos e sabedoria popular tinindo, a um debate sobre a questão: O que é documentário? Eu estava na mesa e debati por horas a diferença entre documentário e ficção e a própria definição de documentário. Ao final ela me disse: “engraçado né? Vocês estudaram tanto e ainda não sabem a diferença entre documentário e ficção. Eu sei!". Eu conto essa situação real não para dizer que os intelectuais (eu incluído) somos burros. Não é isso. Eu adoro esse debate e acho ele bem profundo. Mas nunca podemos perder o ponto de vista do público. Ele sabe intuitivamente o que é documentário e o que é ficção. E na hora de criar temos que trabalhar com isso. O trabalho do criador é jogar com as perspectivas do público, com as opiniões do público, quebrando expectativas e tal. Por isso, mais importante do que ter uma definição exata do que é documentário e o que é ficção é saber o que o público intui que é e jogar com isso, para deixar ele em posição instável, em dúvida sobre realidade e ficção. Isso dá ótimos efeitos sobre o público. Um exemplo pessoal: meu documentário Jesus no Mundo Maravilha lida com personagens reais (policiais que cometeram assassinato) mas inteiro num parque de diversão e com eles reproduzindo ações policiais de forma lúdica. Isso da um efeito ótimo. Muitas pessoas assistem o filme sem ter absoluta certeza de que aqueles personagens são reais. A situação é inteira surreal demais. Desta forma, revelamos o surreal presente nas realidades.


DM: Você tem se dedicado ao desenvolvimento de fábulas a partir de histórias de vida. Como o documentário entra nessa proposta?


NC: É o que mais gosto de fazer no momento. Pegar histórias reais e perceber que, por trás de uma história aparentemente realista, há uma grande fábula acontecendo, uma historia maior, de grandeza e significação cósmicas. Essa percepção da realidade é algo que você pode treinar. Se conseguir ver a vida dessa forma, sua percepção da realidade fica divertida e grandiosa. Tenho treinado isso em tudo! Todos os documentários que fiz até hoje tem duas características complementares: humor e certo surrealismo! Parto da realidade para revelar o surreal. Mostro personagens reais que são construídos em toda sua potência, sem medo de usar recursos de decupagem, ficcionalização e o que for para ampliar a realidade e chegar a matriz arquetípica da fábula. Adoro pegar as histórias de vida e criar situações ficcionais simples que as representem. Também brinco de fazer um método que chamo de coaching storytelling. Sao termos gringos, mas explicam bem o que fazemos. Além de entender o sentido da história do personagem, nosso método parte da história de vida e cria uma solução imaginária ficcional para ajudar a pessoa a resolver algum dilema. E botamos essa situação surreal em prática. Um exemplo que fizemos em Saúde S.A. Percebemos a impotência e repressão da personagem principal, uma senhora de 79 anos. Ai fizemos ela virar um repórter super-herói, cheio de vitalidade que se veste de Michael Moore e parte para lutar pela saúde brasileira. A vida vira uma perfomance encenada. A realidade e ficção se misturam. Depois descobri a psicomagia de Jodorowsky e vi que tem relação com o que já estava desenvolvendo. Tenho estudado muito Jodorowsky e Augusto Boal, pois são mestres de procedimentos documentais que tenho feito intuitivamente em meus filmes.


DM: Você é um grande defensor da cinematografia de gênero e de nicho de mercado. Como esse olhar de mercado pode ajudar na realização de documentários?


NC: Há quem reduza o documentário há um único gênero. Como se ele fosse um gênero em si. Acho pouco. Acho que isso restringe nossa criatividade em documentário. É importante sabermos que documentários tem vários gêneros. O conhecimento dos gêneros ajuda a criar documentários. Eu, por exemplo, trabalhei muito com documentários cômicos. A comédia é tirada do documentário. Quando muito há personagens engraçados. Ok. Mas a estrutura dramática da comédia não é usada em documentários, que tendem a ser dramáticos. Mas é importante você saber que um documentário pode ser construído como comédia. Foi o que fiz no meu primeiro documentário Violência S.A. (dirigido com Ataliba Benaim e Jorge Saad), em que fizemos sátira politica. O conhecimento dos gêneros e subgêneros pode ajudar você a criar seus documentários e , ao mesmo tempo, achar os públicos-alvo de suas obras.


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