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  • Carlos Igareda

A Estética e o Documentário

Começamos a publicar uma série de entrevistas com os professores convidados do curso DocMakers, que se inicia em 6 de abril e vai até 6 de maio de 2018.


A primeira é com o paulistano André Albuquerque. Formado em fotografia em 2004 pela Faculdade SENAC-SP e, desde 2001, trabalha como autônomo para grandes produtoras (O2 Filmes, Pródigo Filmes, Primo Filmes, Duo2, Geral Filmes etc.), atuando nas mais diversas funções: fotógrafo, montador, finalizador e produtor. Em 2010, mudou-se para Praga para fazer o curso de direção de fotografia na FAMU International Academy Program (Film and Television School of Academy of Performing Arts). Quando voltou ao Brasil, em 2011, fez escolhas por trabalhos mais ligados à direção de fotografia e passou a desenvolver também projetos no ramo das imagens aéreas.



DocMakers: Qual o trabalho de um diretor de fotografia no documentário?


André Albuquerque: O diretor de fotografia é responsável por toda a parte gráfica ou artística do filme. Desde antes de filmar, a escolha do formato, tipo de câmera, abordagem, palheta de cores, escolha das lentes… tudo que envolve a questão estética. Por se tratar de um documentário, não existe um roteiro pré definido. Existem ideias e assuntos sobre os quais o diretor gostaria de abordar, mas a história é feita na hora, pelo diretor de fotografia. Suas escolhas vão gerar o material bruto que será lapidado pelo roteirista, montador e diretor. Mas a base de todo o documentário é do diretor de fotografia.

DM: Hoje em dia o conhecimento técnico de fotografia é muito mais acessível. Já o conhecimento teórico-conceitual, de construção do olhar, ainda é mais lento, exige observação, leitura, tempo. A técnica finalmente passará por cima de tudo?


AA: Técnica é a base. Sem os conhecimentos técnicos não se consegue atingir a ideia pré concebida. Existe muita informação nos tempos de hoje, muitos videos explicativos, muitas aulas on line, muitos livros técnicos e principalmente muita gente produzindo conteúdo. Eu tinha um professor que dizia que o olhar do fotografo será aprimorado depois dos seus primeiros 10.000 cliques (isso na época do analógico, onde se pensava muito mais antes de apertar o botão). Acho que a construção do olhar é algo mais lento e que nunca termina de ser construído: nós vamos mudando muito, somos bombardeados por imagens todos os dias, o tempo inteiro, TV, Jornal, Revista, YouTube, NetFlix…nosso olhar crítico sempre analisa tudo a nossa volta e vai escolhendo o que agrada e o que desagrada. O que você achava incrível, inovador, nos anos 2000, pode ser que hoje em dia não te agrade mais. Pessoas que passam muito tempo pra finalizar suas obras, sejam elas audiovisuais, musicais, artísticas, ao longo do processo vão mudando de opinião, o processo fica mais lento ainda pois não se conecta mais com os conceitos que ficaram ultrapassados.

Mas resumindo, e respondendo sua pergunta, a técnica é só a base para criação da construção do olhar. Quando a técnica fica orgânica, não se tem que pensar nela, é apenas um instrumento pra alcançar o que se deseja, aí seu olhar apurado está começando a se desenvolver.

DM: Quais são os fatores mais importantes para garantir uma boa fotografia em um documentário?


AA: Acho que primeiro de tudo tem que se estabelecer um assunto. O que vai abordar esse filme? Sem um tema claro fica difícil de se começar um trabalho. Deixando claro que na maioria das vezes este tema pode mudar ao longo do processo, mas o ponto de partida foi estabelecido. Deve-se ter uma conexão com a equipe inteira: diretor, montador, roteirista, trilheiro, som direto, finalizador, produtor… Quanto mais esse time é unido e joga junto como um time, a chance de produzir um material bacana, que conecte as pessoas, é maior. Quanto menor o acúmulo de funções, melhor a fotografia. Se você está lá apenas para criar boas imagens, sem se preocupar em captar som, em fazer perguntas, isso contribui para que esteja focado em fazer o seu melhor. Mas nem sempre tem infraestrutura pra ter bons profissionais te cercando, ai você acaba tendo que fazer tudo ao mesmo tempo. O fotógrafo de documentário é acima de tudo um antropólogo, no sentido do estudo aprofundado do ser humano. Para obter boas imagens, deve-se passar desapercebido, ser mais um no meio, não se destacar. A conexão com o objeto retratado é essencial.


Conheça mais sobre André Albuquerque: www.dezolas.com.br


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